Churra (Lã), mais uma Campeã Ponta da Pinta
- Manuela Paraíso

- 8 de ago.
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A consagração da minha linda miúda Churra da Ponta da Pinta como Campeã Nacional Júnior, após obtenção do seu quarto certificado CCJ na 43ª Exposição Nacional de Sintra, no sábado passado (tendo conseguido o quinto no dia seguinte, na Internacional), é motivo para festejar: acrescenta este título ao de Jovem Esperança 25, obtido em tenra idade, nas suas primeiras entradas em ringues, em que evidenciou a sua elevada e promissora qualidade.
Mais do que isso, confirma a consistência da qualidade do meu trabalho como criadora: 24 campeões em 24 anos (dos quais 5 foram de interregno). É um número digno, que reflecte o saber e a competência, mais ainda dado que o meu objectivo principal nunca foi criar campeões, mas sim cães globalmente correctos, típicos, saudáveis, funcionais, ajudando a conservar a diversidade genética da raça, o instinto de trabalho, a adaptabilidade e capacidade do Serra de pêlo comprido para desempenhar a função original, a variedade de pêlo curto, a diversidade de cores permitidas no estalão da raça, as quais vão muito além do fulvo comum que quase todos criam. È preciso admitir: não é coisa pouca. É trabalho para ser feito lentamente, passo a passo, com perseverança, ao longo de gerações, por vezes com alguma heterogeneidade nas ninhadas mas sempre escolhendo os melhores de cada uma delas para continuar e manter – ou, preferencialmente, elevar - a qualidade.
Reconhecer a evidência
Repito: 24 campeões não é coisa pouca. É um número que me orgulho de apresentar a todos, incluindo àqueles que me criticam porque, segundo referem, “não podemos pensar só na saúde”. Têm razão: temos de pensar em tudo, no cão completo – e não apenas na sua tipicidade ou beleza. Temos de tentar sempre criar cães da melhor qualidade possível, na tipicidade, na morfologia, no temperamento, na saúde e rusticidade e também, através de cada um deles que irá ser reprodutor, no legado que estamos a deixar à raça. Qual o interesse de criar exemplares, por muito típicos, belos ou imponentes que sejam, que evidenciam irregularidades nos andamentos, que têm uma construção que jamais lhes permitiria desempenhar a função original, que têm uma pelagem tão longa e sedosa que os incapacitaria de andar horas e horas sob chuva ou neve sem ficarem ensopados e adoecerem?
Outra pergunta: porque será que tantos, para não dizer quase todos os criadores enfrentam graves problemas quando tentam abrir linhagens e ir buscar sangue novo, devido ao facto da grande maioria dos seus exemplares serem consanguíneos? Terão alguns deles noção de que a circunstância de irem buscar, a outro criador, um cachorro cujo pedigree apresenta 3 gerações de antepassados diferentes dos que eles têm em casa, não significa que, nas gerações anteriores, não haja, por vezes bem vincada, a consanguinidade exacerbada que tentam evitar? Esse é um problema frequente que todos enfrentam e que, se não encontrarem para ele resposta eficaz, mais tarde ou mais cedo tenderão a surgir consequências adversas. Tudo porque, segundo eles, “primeiro, ou até apenas, o tipo”. Eu, pelo contrário, entendo o cão como um todo. Para mim, tudo é importante. O cão deve ser o mais completo possível. Tipicidade, carácter, robustez, saúde. E a diversidade genética é, nesta equação, uma mais-valia que, prova-o a ciência, ajuda a manter o vigor e a viabilidade das raças, mais ainda nas que se querem rústicas para continuarem a desempenhar o seu trabalho em plena natureza, por vezes agreste.
É esse princípio que almejo seguir, promovendo acasalamentos entre as duas variedades, procurando ir buscar à de pêlo curto, que, regra geral, se mantém mais rústica, a diversidade genética que está restrita na de pêlo comprido, bem como as qualidades fundamentais nos cães de trabalho. Porque é isso que quero continuar a criar: não apenas cães para exposições, não apenas cães para família ou protecção, mas exemplares com o mais completo possível conjunto de qualidades que faz do Serra da Estrela um cão muito versátil e procurado. Neste meu conceito, não estou sozinha, muitos o fizeram antes de mim, alguns continuam a fazê-lo. Pastores e certos criadores que criaram ambas as variedades, ou sobretudo a de pêlo curto mas legando nessas linhagens material genético valioso que deve ser aproveitado na generalidade da raça (aproveito aqui para, com humildade e gratidão, reconhecer e agradecer todo esse trabalho de desenvolvimento da raça, que está na génese dos cães que tenho e tive, e a todos os que, como eu, com amor e dedicação genuínos, continuam a zelar, o melhor que conseguem, para conservar as suas linhagens e assim contribuir para um futuro sólido para a raça).

Cruzar pêlo comprido com pêlo curto
Esta minha opção por fazer acasalamentos inter-variedades é também, não raras vezes, alvo de crítica. O argumento que usam é de que estou a criar híbridos, cães de “meio-pêlo”, contribuindo para degenerar a raça. Sucintamente, para os leigos em matéria de genética, afirmo que este pressuposto é errado; que os chamados Serras de “meio-pêlo” podem ser originados por acasalamentos dentro da mesma variedade (seja ela de pêlo comprido ou de pêlo curto), tanto quanto por cruzas inter-variedades (noutro artigo, em breve, explicarei como isto acontece, do ponto de vista científico da genética, que sempre nos deve apoiar). E se, ocasionalmente, nascem cachorros com uma pelagem que parece intermédia (os quais, por vezes, requerem a realização de testes genéticos para nos indicar qual a sua variedade, se de pêlo comprido ou pêlo curto), na maioria dos casos (pelo menos, aferindo da minha experiência de 12 anos a criar Serras de pêlo curto, quase todos resultantes de acasalamentos entre as duas variedades), a pelagem dos cachorros não suscita qualquer dúvida, ao fim de 4 ou 5 semanas. E os benefícios são vários, como já referi: entre outros, melhorar o tipo e ampliar a diversidade genética de cada variedade.
E vou acrescentar: entre os 24 campeões que criei, 6 são fruto desse tipo de acasalamento (uma deles, a Lã) e outros 3 tinham ascendentes próximos de ambas as variedades. E, como já referi, não inventei a pólvora: tudo indica que a própria existência do Cão da Serra da Estrela de pêlo comprido seja consequência de acasalamentos fortuitos, ao longo da história, de Serras de pêlo curto, variedade que é geneticamente dominante. Ontem, como hoje, é frequente que do acasalamento de dois Serras de pêlo curto nasçam alguns cachorros de pêlo comprido (estatisticamente, cerca de 25% da ninhada). Ou seja, tudo isto faz parte da história, da evolução da raça e do reforço da sua robustez e do vigor gerado pela diversidade genética. É por isso normal, e até desejável, que estes acasalamentos entre as duas variedades continuem a acontecer – quer de forma casual, quer premeditada – e a possibilidade que o Clube Português de Canicultura permite aos criadores, mediante fundamentação justificada, de registar ninhadas resultantes pode representar (na verdade, tem representado) um grande benefício para o Cão da Serra da Estrela.





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